"Doutora, minha mãe toma cálcio há dez anos. Como quebrou o fêmur?"
Essa foi a pergunta que abriu a consulta na semana passada. A filha trouxe a mãe recém-operada, com o joelho ainda enfaixado da queda, e uma cartela de cálcio efervescente na bolsa. A pergunta doeu — porque é a pergunta certa, feita na hora errada.
Cálcio previne osteoporose em osso saudável. Cálcio não trata osteoporose que já se instalou. São coisas diferentes. E é uma diferença que a maioria das famílias não sabe — porque, historicamente, ninguém explicou.
Em 15 anos de geriatria em Fortaleza, aprendi que essa confusão custa fraturas. Custa cirurgias que poderiam ter sido evitadas. Custa autonomia perdida na cadeira de rodas. Este artigo é pra mudar isso — na sua família.
O tamanho do problema — o que os dados mostram
A osteoporose é uma das doenças mais silenciosas e mais subdiagnosticadas do envelhecimento. A Fundação Internacional de Osteoporose (IOF) estima que, no mundo, 1 em cada 3 mulheres e 1 em cada 5 homens acima dos 50 anos terá uma fratura osteoporótica ao longo da vida. No Brasil, projeções da IOF indicam que mais de 10 milhões de brasileiros já têm osteoporose — e a maioria não sabe.
O que assusta é o desfecho. Uma fratura de colo do fêmur em idosa aos 75-85 anos tem consequências que vão muito além do osso quebrado: perda funcional grave, hospitalização prolongada, complicações cirúrgicas, imobilidade, tromboembolismo, pneumonia, delirium hospitalar. Estudos internacionais apontam que até 20% das idosas com fratura de fêmur morrem no primeiro ano, e uma proporção ainda maior não recupera autonomia prévia.
E não é só o fêmur. Fraturas vertebrais silenciosas — aquelas que não dão dor aguda, mas encolhem a coluna e curvam a postura — são ainda mais comuns e ainda mais subdiagnosticadas. A SBOM (Sociedade Brasileira de Osteoporose e Metabolismo Ósseo) e a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) ambas insistem: prevenir a próxima fratura é a intervenção clínica de maior impacto na expectativa e na qualidade de vida da mulher idosa.
Por que cálcio, sozinho, não trata osteoporose já instalada
O osso não é uma estrutura estática. Ele se refaz constantemente ao longo da vida, num processo chamado remodelamento ósseo. Osteoclastos reabsorvem osso velho, e osteoblastos produzem osso novo. Em pessoa saudável, os dois trabalham em equilíbrio.
Depois da menopausa, esse equilíbrio se rompe. A queda do estrogênio libera os osteoclastos, que passam a reabsorver osso numa velocidade que os osteoblastos não conseguem acompanhar. Resultado: o osso perde massa mais rápido do que consegue repor.
Cálcio é o material bruto que os osteoblastos usam pra construir osso novo. Cálcio é essencial — mas não muda a taxa de reabsorção. Não desliga os osteoclastos. Não corrige o desequilíbrio. Você pode ingerir 1.500 mg de cálcio por dia e continuar perdendo osso, se a máquina de destruição estiver rodando mais rápido do que a máquina de construção.
É por isso que, quando a osteoporose já se instalou, precisamos de medicações que atuam diretamente no remodelamento. Medicações que ou freiam a reabsorção (antirreabsortivos), ou estimulam a formação (anabólicos).
Como se faz o diagnóstico — a densitometria óssea
O padrão-ouro pro diagnóstico é a densitometria óssea (DEXA), feita em coluna lombar e fêmur. O resultado principal é o T-score — comparação da densidade óssea da paciente com a de uma adulta jovem saudável de referência. Interpretação, segundo a Organização Mundial da Saúde:
- T-score acima de −1 → osso saudável
- T-score entre −1 e −2,5 → osteopenia
- T-score ≤ −2,5 → osteoporose formal (indicação de tratamento farmacológico)
- T-score ≤ −2,5 + fratura por baixo impacto → osteoporose grave
Além do T-score, o médico avalia outros fatores: fratura prévia, uso crônico de corticoide, história familiar, tabagismo, IMC baixo, artrite reumatoide, hipertireoidismo, inibidores de aromatase. A calculadora FRAX (OMS) integra esses fatores num escore de risco em 10 anos.
Meu ponto clínico: toda mulher acima de 65 anos deveria ter feito pelo menos uma densitometria. Se sua mãe tem 70 e nunca fez, ela está atrasada.
As três classes de medicação que a geriatria usa
Bifosfonatos. Tratamento de primeira linha pra maioria das mulheres com osteoporose pós-menopáusica. Freiam a reabsorção óssea. Principais: alendronato (semanal), risedronato (mensal), zoledronato (infusão anual). O estudo FIT (Fracture Intervention Trial) com alendronato demonstrou redução em torno de 50% do risco de fratura vertebral. Cuidados: uso em jejum, paciente em pé por 30 minutos após a dose, contraindicado em clearance renal abaixo de 30-35 ml/min.
Denosumab. Anticorpo monoclonal, injeção subcutânea a cada 6 meses. O FREEDOM trial demonstrou redução em torno de 68% de fratura vertebral e 40% de colo do fêmur em três anos. Indicado em função renal comprometida ou intolerância a bifosfonato. Suspender denosumab sem substituir por bifosfonato causa efeito rebote — descontinuação exige plano médico cuidadoso.
Teriparatide. Primeiro anabólico ósseo — estimula formação em vez de frear reabsorção. Análogo do paratormônio, injeção diária. Reservado pros casos graves: osteoporose severa com múltiplas fraturas, ou falha de outras classes. Uso limitado a 24 meses ao longo da vida, sempre seguido por antirreabsortivo pra consolidar o osso ganho.
Além dessas três, existem opções em situações específicas: raloxifeno, romosozumabe e a terapia de reposição hormonal em casos selecionados.
Os 3 exames que a família pode pedir hoje
Se você suspeita que sua mãe tem osteoporose ou já foi diagnosticada mas nunca foi tratada além do cálcio:
1. Densitometria óssea (DEXA) de coluna e fêmur. Exame-âncora. Fecha o diagnóstico.
2. Vitamina D (25-hidroxivitamina D). Deficiência prejudica absorção de cálcio e reduz eficácia do tratamento ósseo. Ideal acima de 30 ng/mL.
3. Cálcio iônico + PTH + creatinina/TFG. Cálcio real, função paratireóide (que pode corroer osso silenciosamente) e função renal (define medicações seguras).
Com esses três resultados em mãos, a consulta geriátrica se torna produtiva desde o primeiro minuto.
O papel da Avaliação Geriátrica Ampla no cuidado ósseo
Osteoporose no idoso raramente vem sozinha. Vem junto de sarcopenia, deficiências nutricionais, polifarmácia e alterações de equilíbrio. Por isso, na Avaliação Geriátrica Ampla que faço em toda primeira consulta, a saúde óssea é uma das seis dimensões avaliadas — junto com humor, cognição, medicação, sono, marcha e autonomia.
Quando procurar geriatra em Fortaleza
Se sua mãe já teve fratura por baixo impacto, se a última densitometria mostrou T-score abaixo de −2,5, se ela usa (ou usou) corticoide por mais de três meses, se perdeu 3 centímetros ou mais de altura, ou se tem dor óssea persistente sem trauma — a hora de agir é agora, não depois da próxima queda.
Atendo particular no Edifício UNO Medical & Office, Av. Pontes Vieira, 2340, 4º andar, Sala 415, Dionísio Torres, Fortaleza – CE, de segunda a sexta, das 8h às 18h.
Se sua mãe já tem os exames em mãos, traz na consulta. Se não tem, pedimos juntos. A próxima fratura é a que a gente ainda pode evitar.
Referências: OMS · IOF Compendium of Osteoporosis 2024 · SBOM · SBGG · NOGG (UK, 2021) · AACE 2020 · Black DM et al. Fracture Intervention Trial (FIT). Lancet 1996 · Cummings SR et al. FREEDOM trial (denosumab). NEJM 2009.