Dra. Luciana Leite

Blog

Surdez aumenta risco de demência em 42%, diz Lancet

O que o The Lancet descobriu: surdez não tratada aumenta em 42% o risco de demência

Em 2024, a Lancet Commission on Dementia Prevention atualizou aquela que é hoje a maior análise científica sobre fatores modificáveis de demência no mundo. A lista identificou 14 fatores que, se controlados ao longo da vida, podem prevenir até 45% dos casos de demência.

Entre esses fatores, a perda auditiva não tratada na meia-idade ficou no topo da lista — associada a um aumento estimado de até 42% no risco de desenvolver demência. Nenhuma outra causa modificável, nenhum suplemento, nenhum medicamento isolado tem efeito desse tamanho.

E ainda assim, a audição segue sendo a última coisa que avaliamos quando uma família chega preocupada com a memória de um parente.

Esse artigo é para mudar isso.

A relação entre audição e cognição não é metáfora — é mecanismo neurobiológico, e a ciência das últimas duas décadas mapeou três caminhos pelos quais a surdez não tratada acelera o declínio cognitivo:

Quando o ouvido manda sinal degradado para o cérebro, áreas que normalmente fariam memória e raciocínio passam a gastar energia tentando "decifrar" o som. É como rodar três aplicativos pesados em um celular antigo — tudo o resto fica lento. Em longo prazo, esse esforço crônico esgota recursos cognitivos que deveriam estar disponíveis para outras funções.

O cérebro funciona pelo princípio do "use ou perca". Quando o córtex auditivo deixa de receber sinal por anos, ele encolhe. E não encolhe sozinho — arrasta com ele áreas vizinhas envolvidas em memória, linguagem e atenção. Estudos de neuroimagem mostraram que idosos com surdez não tratada perdem volume cerebral em ritmo mais rápido que pares com audição preservada.

Quem não escuta direito sai de cena. Para de ir ao almoço de família, finge entender numa conversa de grupo, desliga do mundo. Isolamento social, hoje, é considerado fator de risco independente para demência — porque o cérebro precisa de estímulo relacional para se manter ativo.

Os três mecanismos se reforçam: o idoso surdo se cansa de tentar entender, se isola, recebe menos estímulo, perde mais função. A perda auditiva não causa Alzheimer. Mas cria o ambiente cerebral perfeito para que ele se instale antes.

Aqui mora a parte que vira virada de chave nas consultas: tratar a surdez reduz o risco.

O estudo ACHIEVE, publicado em 2023, acompanhou mais de 900 idosos com perda auditiva durante três anos. Metade recebeu aparelhos auditivos + acompanhamento auditivo regular. A outra metade recebeu apenas educação geral em saúde.

Nos participantes com risco aumentado de declínio cognitivo, o grupo que usou aparelho auditivo perdeu 48% menos função cognitiva em três anos do que o grupo controle. Quase metade do declínio evitado, apenas com aparelho.

Esse dado mudou a forma como geriatras conversam com famílias. Hoje, em uma avaliação de longevidade séria, a audição é tão importante quanto a pressão arterial.

Essa é, em 9 de cada 10 consultas, a frase que a filha cuidadora me traz.

Vou ser direta: a recusa raramente é sobre o aparelho em si. É sobre o que o aparelho representa.

Em consultório, a melhor abordagem que conheço é não pedir para a pessoa "querer usar o aparelho". É pedir para fazer uma avaliação auditiva de check-up, sem compromisso. Dali, o fonoaudiólogo e o geriatra constroem juntos o caminho. Forçar não funciona; informar com cuidado, sim.

A pessoa pode não perceber, mas o resto da família sim. Esse é o sintoma mais democrático.

Em conversa um-a-um, o cérebro compensa. Em mesa de almoço com três ou quatro pessoas falando, a perda auditiva aparece: a pessoa olha de um lado para o outro, esboça sorrisos sem entender, pede para repetir o que já foi dito várias vezes — ou fica em silêncio.

"Faz", "paz", "vás". "Pão", "mão", "não". Quando o cérebro recebe sinal degradado, ele "completa" o que falta — e às vezes erra. A pessoa entende uma coisa pela outra, responde fora do tom, e a família passa a achar que ela está "desligada" ou "confusa".

Voltou de um almoço de família e foi direto deitar? Pode não ser só idade. Decifrar fala com audição comprometida é exaustivo — e o cérebro paga conta.

Esse é o sinal mais silencioso e o mais importante. Quando a pessoa começa a recusar convites para almoços, ligações longas, eventos — não interprete como "ele/ela quer ficar sozinha". Avalie a audição primeiro.

Em uma consulta de geriatria que leva a audição a sério, o caminho costuma ser:

1. Triagem rápida em consultório — perguntas validadas (ex.: questionário HHIE-S) e testes simples de fala. 2. Encaminhamento para audiometria com fonoaudiólogo de confiança — exame completo, dura cerca de 40 minutos, é indolor. 3. Discussão dos resultados em conjunto — paciente + família + geriatra. Aqui é onde se decide o tipo de aparelho (intra-canal, retroauricular, etc.). 4. Adaptação progressiva — usar 1h por dia na primeira semana, ir aumentando. A maioria dos abandonos acontece por falta de adaptação assistida, não por defeito do aparelho. 5. Reavaliação cognitiva após 6 meses — porque sim, a função cognitiva costuma melhorar.

A regra prática que dou para minhas pacientes: se você está esticando o pescoço para entender uma conversa, já é hora de avaliar.

Quanto antes a perda auditiva é tratada, melhor o cérebro responde. A janela de eficácia do aparelho é maior nos primeiros anos da perda — depois disso, mesmo com o aparelho, o córtex auditivo já encolheu o suficiente para que a recuperação seja parcial.

Audição é, hoje, a intervenção com melhor relação custo-benefício em prevenção de demência. Não é detalhe. É check-up.

Sobre a autora: Dra. Luciana Leite é médica geriatra com atuação em Fortaleza/CE. Inclui avaliação auditiva sistemática nas suas Avaliações Geriátricas Amplas (AGA), em parceria com fonoaudiólogos da rede UNO Medical.

Referências: - Livingston G et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024. - Lin FR et al. Hearing intervention versus health education control to reduce cognitive decline in older adults with hearing loss in the USA (ACHIEVE): a multicentre, randomised controlled trial. The Lancet, 2023.

Para orientações personalizadas sobre o seu caso ou de um familiar idoso, agende uma consulta com a Dra. Luciana Leite — médica geriatra em Fortaleza, CE.

Agendar Consulta via WhatsApp