"Bateu no portão de casa três vezes esse mês. E ainda pega o neto na escola."
A filha chegou comigo essa semana desesperada. Sentou, respirou fundo, e disse essa frase que eu ouço tanto — nesse verbo, nesse tom, nessa culpa embutida. Ela não veio pedir pra reavaliar o pai. Veio pedir permissão pra ter uma conversa que ela adiou por dois anos.
Se você tá lendo esse artigo, provavelmente já ensaiou a sua também. E adiou também. É natural. Ninguém quer ser a pessoa que tira a chave do carro do pai.
Em 15 anos de geriatria em Fortaleza, aprendi que essa é uma das conversas mais evitadas dentro da família com idoso — e uma das que, quando acontece do jeito errado, deixa mais rancor. A boa notícia é que existe um jeito certo. E ele começa antes da conversa em casa. Começa no consultório.
Este artigo é pra essa família.
O tamanho do problema — o que o Brasil já mudou (e o que ainda não)
O Brasil envelheceu. Em 2022, o IBGE contabilizou mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Uma parte importante desse contingente ainda dirige — e muitos vão continuar dirigindo por décadas, com segurança e autonomia. Mas outra parte já cruzou o ponto em que dirigir passou de liberdade para risco. E a família raramente sabe onde traçar essa linha.
O sistema regulatório brasileiro já reconhece essa realidade. A Resolução do CONTRAN nº 927/2022 determina que motoristas com 65 anos ou mais renovem a Carteira Nacional de Habilitação a cada três anos, com exame médico obrigatório. Motoristas com 70 anos ou mais, a cada dois anos. E, no caso de suspeita clínica, a avaliação pode ser antecipada — solicitada pelo próprio médico assistente, pela família, ou pelo DETRAN, sempre que houver dúvida razoável sobre a capacidade de dirigir com segurança.
A ABRAMET (Associação Brasileira de Medicina de Trânsito) publica desde a década de 1990 diretrizes técnicas sobre a avaliação da aptidão para dirigir em populações específicas — incluindo o idoso. Elas contemplam reflexo, campo visual, acuidade visual, função cognitiva, audição, coordenação motora, e o impacto de medicações (particularmente sedativos, ansiolíticos, anticolinérgicos e opioides). São critérios objetivos, aplicáveis, reprodutíveis.
O que a maioria das famílias não sabe: avaliar se um idoso pode ou não continuar dirigindo é competência médica direta, não familiar. A filha não precisa (e não deveria) carregar essa decisão sozinha.
Por que a habilidade de dirigir muda com o envelhecimento
Envelhecer, por si só, não desqualifica ninguém para dirigir. Existem motoristas de 82, 85 anos com plena capacidade, dirigindo bem, sem incidentes. E existem motoristas de 63 que já perderam condições. Não é a idade. São as funções.
Cinco funções específicas são o que sustenta a capacidade de dirigir com segurança — e todas elas podem declinar com o tempo, mesmo em pessoas saudáveis:
Tempo de reação. Frear diante de uma criança que atravessa a rua exige uma cadeia neurológica que se torna mais lenta com a idade. Mesmo idosos saudáveis reagem alguns centésimos de segundo mais devagar que jovens. Isso importa muito na diferença entre uma freada segura e uma colisão.
Campo visual periférico. A visão central pode continuar 100%, mas a periferia — aquela que capta o ciclista se aproximando pela lateral, o carro entrando na preferencial — vai estreitando. O idoso "vê bem", mas vê menos do que precisa pra dirigir.
Função cognitiva executiva. Dirigir é uma tarefa cognitiva complexa — exige atenção dividida, planejamento (que rua pego?), memória de trabalho (o farol estava vermelho ou verde?), e capacidade de tomar decisões rápidas. Em quadros iniciais de comprometimento cognitivo leve (CCL) ou demência, essas funções falham antes que a família perceba.
Coordenação motora fina. Trocar marcha, girar volante, ajustar pedal. Movimentos que a mão do idoso executa com pequena imprecisão que, no trânsito, pode virar um trágico "confundi o freio com o acelerador".
Efeito de medicações. E aqui está uma das causas mais subestimadas. O idoso frequentemente toma benzodiazepínicos (Rivotril, Diazepam), anticolinérgicos, opioides ou sedativos para dormir. Todos esses reduzem a atenção e o tempo de reação. Muitos idosos dirigem sem saber que a medicação que o clínico prescreveu semana passada já é motivo suficiente pra reavaliação.
5 sinais de que é hora de reavaliar
A família raramente vê o declínio de uma vez. Ele chega devagar. E como o idoso quase nunca vai admitir, a responsabilidade de reconhecer é do entorno. Cinco sinais que aprendemos a levar a sério em consulta:
1. Acidentes pequenos que se acumulam. Bateu no portão de casa. Riscou o carro no estacionamento. Amassou o para-choque manobrando. Um episódio é distração. Três em três meses é padrão.
2. Esquece caminhos que faz há décadas. Perdeu-se voltando da igreja pra casa. Não achou a rua da filha. Precisou perguntar a alguém o caminho pra uma padaria que ele frequenta há vinte anos. Isso não é falha de memória — é sinal cognitivo relevante.
3. Reação lenta em situação inesperada. Não frear na hora certa. Não desviar de um obstáculo previsível. Chegar em cima do carro da frente sem perceber. Muitas vezes a família só nota isso quando anda de carona.
4. Confusão entre pedais. Diz que "confundiu" o freio com o acelerador "uma vez, só uma vez". Essa é a frase que a família precisa levar a sério — porque uma vez pode ser um acidente fatal. Confusão de pedal é sinal neurológico grave.
5. A família já para de pedir carona. Muitas vezes esse é o sinal mais eloquente. Os netos não querem mais que o avô vá buscá-los na escola. A esposa arruma desculpa pra dirigir ela mesma. A filha só entra no carro se for muito necessário. O corpo da família já sabe. A decisão consciente é que ainda não foi tomada.
Se você marcou dois ou mais desses sinais, é hora de agendar uma avaliação médica dirigida — antes da próxima renovação da CNH e antes de mais um "quase acidente".
O que a avaliação médica faz — e por que ela tira o peso da filha
Em consultório, quando uma família me traz o idoso pra avaliar a capacidade de dirigir, eu não decido no ato. Existe um roteiro clínico — objetivo, reprodutível, baseado nas diretrizes da ABRAMET e nas recomendações da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia). Ele inclui:
- Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) — humor, cognição, memória, marcha, sono, medicação em uso
- Rastreio cognitivo com instrumentos validados (Mini Exame do Estado Mental, MoCA, Teste do Relógio) — específicos pra identificar déficits que impactam direção
- Avaliação de medicações — cruzar com o Critério Beers para identificar drogas que afetam direção segura
- Avaliação de comorbidades — diabetes descompensado (risco de hipoglicemia ao volante), epilepsia, apneia do sono, doença de Parkinson, catarata não operada
- Encaminhamento pra oftalmologia e neurologia quando indicado
- Discussão franca com a família sobre o resultado
A partir daí, três desfechos possíveis:
1. Está apto. Alguns pequenos ajustes (troca de medicação, evitar dirigir à noite ou em rodovia, revisão dos óculos) e ele continua dirigindo. A família fica tranquila.
2. Está apto com restrições. Pode dirigir só de dia, só em trajetos conhecidos, só sem tomar determinado remédio antes de sair. Restrições formais, documentadas.
3. Não está apto. E aqui está o momento delicado. Mas quem entrega essa conclusão pra família e pro paciente é o médico. Com autoridade técnica, com dados no relatório, com o parecer registrado no prontuário. Não é a filha inventando problema. É a médica dizendo o que precisa ser dito.
Esse é o valor real da avaliação: tira o peso da decisão dos ombros da família. A conversa em casa muda de tom. Não é mais "pai, você não pode mais" — é "pai, a médica pediu pra gente conversar sobre isso."
Como conduzir essa conversa em casa
Mesmo com o parecer médico em mãos, a conversa em casa continua sensível. O idoso pode reagir com raiva, negação, tristeza — todas reações legítimas. Perder a permissão de dirigir é perder uma parte importante da autonomia adulta. E ele merece respeito nesse processo.
Quatro princípios que funcionam na prática:
Não comece pela decisão. Comece pela consulta. A conversa não é "você não pode mais dirigir". É "marquei uma consulta com uma geriatra pra avaliar sua habilitação — a próxima renovação tá chegando, vamos fazer direitinho." Isso desloca a decisão pra fora do círculo emocional.
Reconheça a perda, não minimize. "Eu sei que isso é difícil. Dirigir sempre foi parte da sua liberdade." Não passe por cima do que ele sente. O luto da autonomia é real. Nomear ajuda.
Ofereça o próximo passo, não só a interdição. "A gente organiza uber pras suas coisas. Você ainda vai onde quiser." A perda vem embalada em solução prática. Ninguém aceita perder algo sem saber o que vem em troca.
Evite plateia. Essa conversa não acontece no almoço de domingo com todo mundo em volta. Acontece com uma ou duas pessoas de confiança, num momento tranquilo, sem pressa.
Quando procurar geriatra em Fortaleza
Se você reconheceu seu pai, sua mãe, seu tio, ou qualquer idoso da família nas linhas acima — não empurre com a barriga achando que a próxima vez vai ser mais fácil. A próxima vez pode ser um acidente que ninguém queria.
Atendo particular no Edifício UNO Medical & Office, Av. Pontes Vieira, 2340, 4º andar, Sala 415, Dionísio Torres, Fortaleza – CE, de segunda a sexta, das 8h às 18h. A Avaliação Geriátrica Ampla que faço em toda primeira consulta inclui — quando essa é a demanda — a avaliação estruturada da aptidão para dirigir, com rastreio cognitivo, revisão de medicações que impactam a direção e emissão de parecer formal para instrução da família e, se solicitado, para apresentação junto ao DETRAN.
Você agenda essa consulta pra ele. Ele vem comigo. A gente conversa lá. E se a resposta precisar ser "não está mais apto", quem vai dizer isso a ele sou eu — não você.
Agendamento pelo WhatsApp ou pelo botão do link da bio.
Sobre a autora: Dra. Luciana Leite é médica geriatra em Fortaleza há 15 anos, com 20 anos de formação médica. Especialista pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Detém três Registros de Qualificação de Especialista: RQE 4877 (Geriatria), 7263 (Clínica Médica) e 8193 (Medicina Paliativa). CRM-CE 10.305. Foi aprovada em 2016 no primeiro concurso público para médico paliativista do Brasil (HUWC) e implantou em 2019 o Serviço de Cuidados Paliativos do Instituto Dr. José Frota (IJF). Mestre em Ensino na Saúde e Tecnologias Educacionais pelo Centro Universitário Christus (Unichristus), 2025.
Referências:
- Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN). Resolução nº 927, de 28 de março de 2022 — Dispõe sobre os exames de aptidão física e mental necessários à habilitação de condutores de veículos automotores.
- Associação Brasileira de Medicina de Trânsito (ABRAMET). Diretrizes de Avaliação da Aptidão para Dirigir.
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Diretrizes de Avaliação Geriátrica Ampla.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022.
- American Geriatrics Society. Beers Criteria for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. Atualização 2023.